AMNÉSIA
Título Original: Memento
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 120 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2001
Roteiro: Christopher Nolan, baseado em estória de Jonathan Nolan
Direção: Christopher Nolan
No início de Amnésia vemos uma foto, daquelas instantâneas, e ela mostra uma mancha grande de sangue numa parede e o que parece ser um corpo inanimado. A mão que segura a foto se movimenta, um movimento estranho, como se ele fosse contrário, voltando no tempo. Aos poucos vemos que nossa impressão estava correta, a foto começa a ficar sem nitidez e, rapidamente, percebemos que estamos vendo cenas de trás para frente, no que culmina com os momentos anteriores a morte de Teddy, provocada intencionalmente por Leonard. Calma, não me utilizei do famigerado spoiler para estragar sua diversão com o filme, ele inicia mesmo desta forma, pelo final. A pergunta que fica é: qual a graça de um filme em que já sabemos o final? Mais ainda, qual a graça de um filme que fala sobre uma perseguição, do qual já sabemos esta ter tido êxito, com a morte de Teddy e a vingança de Leonard consumada? Vingança, mas que vingança? Calma, aos poucos, e sem entregar nada, tentarei discorrer um pouco sobre este que é um dos melhores filmes feitos nos últimos dez anos.
Aos poucos (de trás para frente, lembra?) vamos entendendo o que levou Leonard a cometer o homicídio do início do filme, do final da história. Ele sofreu um trauma, sua esposa foi estuprada e assassinada e, após isso, Leonard passou a sofrer de um distúrbio de perda de memória recente, ou seja, não consegue guardar informações novas, mesmo lembrando de tudo que ocorreu antes do trauma. O protagonista, mesmo enfrentando esta enorme dificuldade, parte numa verdadeira caçada ao algoz de sua esposa. Mas como sobreviver numa realidade em que sua memória o testa a todo momento, em que, simplesmente, você não consegue lembrar do início de uma conversa lá pela metade dela? A saída de Leonard é muito engenhosa e mostra o quão metódico é este ex-inspetor de seguros. Ele tira fotos de todas as pessoas que cruzam seu caminho, anotando no verso lembretes pertinentes, dicas sobre a pessoa e coisas que ele não pode ficar sem saber. Informações mais importantes, que não podem ficar a mercê da efemeridade do papel, são gravadas em forma de tatuagem no seu corpo, a maioria delas em sentido inverso para que ele possa lê-las no espelho. No caminho de Leonard surgem o já citado Teddy, e a misteriosa e intrigante Natalie, personagens primordiais no desenrolar da história e no desvendamento gradual da trama. Sim, mesmo sendo contado do fim para início, Amnésia guarda muitas surpresas para o espectador, contadas com primazia através de um roteiro genial e uma montagem igualmente cheia de qualidades.
O que poderia ser somente o caso de um bom filme, desenvolvido com esmero por um ótimo cineasta e que se beneficia da cronologia invertida para contar uma boa história mas, que se contado de forma cronológica perderia o encanto (esta definição se encaixa perfeitamente no caso do ótimo Irreversível, de Gaspar Noé), aqui se apresenta num filme magnífico, não importando a forma como a história for contada. É claro que a cronologia invertida confere um toque genial à Amnésia, afinal só o esforço dos realizadores neste sentido já é digno de nossa admiração, mas fica a impressão de que tudo é tão bem feito, de que a história é tão bem bolada e contada, que mesmo se fosse apresentado da forma normal, seria um grande filme. O labirinto em que o diretor Christopher Nolan nos coloca é algo claustrofóbico, num drama que se converte em thriller policial sem perder suas características primárias. Além do roteiro e montagem primorosos, as atuações do filme são magníficas. Guy Pearce faz o melhor e mais impactante papel de sua carreira, numa mistura de atormentado em busca de vingança e perdido na sua própria limitação física/psicológica. Carrie-Anne Moss e Joe Pantoliano, respectivamente Natalie e Teddy, também nos brindam com interpretações à altura de Pearce, conferindo equivalência de seus coadjuvantes de luxo, ao destacado protagonista.
Muitos criticam o título nacional, afinal de contas Memento em grego significa “lembra-te” e o próprio protagonista diz, por diversas vezes, que o que tem não é amnésia, e sim perda de memória recente. Concordo que o título original é infinitamente superior, mas, desta segunda vez que vi o filme, acredito que entendi o porquê desta denominação nacional, tão criticada. É claro, que não falarei, já que tal tese só poderia ser exposta junto com uma revelação importante da trama, algo que não farei. O que realmente importa é que, Amnésia é um filme maravilhoso, daqueles em que fica difícil apontar alguma falha. Christopher Nolan já se mostrava ali um diretor visionário, algo que sua carreira vem confirmando filme após filme. A complexidade da trama vai se acentuando conforme a narrativa avança e Nolan nos mostra que sim, é possível surpreender, e muito, mesmo que já saibamos o fim história. Não acredita? Assim como eu, antes de ver o filme pela primeira vez, pensa que os elogios à Amnésia são exagero? Veja e me diga se não é um dos filmes mais intrigantes e engenhosos que já viu.
O BANHEIRO DO PAPA
Título Original: El Baño del Papa
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 97 minutos
Ano de Lançamento (Brasil / Uruguai / França): 2007
Roteiro: César Charlone e Enrique Fernández
Direção: César Charlone e Enrique Fernández
O neo-realismo foi um movimento muito importante que surgiu na Itália do pós-guerra, um manual, não escrito, de signos para se fazer cinema, seguido por diversos cineastas importantes que marcaram época por suas abordagens sociais, pelo naturalismo de suas encenações e pela tentativa de expor a realidade sem maneirismos, é claro, salvo pela influência da visão do cineasta. Este O Banheiro do Papa, pode-se dizer, bebe escancaradamente da fonte desta linguagem criada pelos italianos nos idos anos 50/60. Vou além, ao fazer um paralelo ideológico entre ele o um dos filmes mais representativos daquele movimento: o clássico de Vittorio de Sicca, Ladrões de Bicicletas. Mas tal parentesco entre os filmes, eu comento depois.
Em Melo, cidadezinha do interior do Uruguai, a maioria da população é pobre e um dos grandes meios de subsistência é o contrabando de mercadorias vindas do Brasil. As viagens são arriscadas e penosas fisicamente, a maioria dos “viajantes fronteiriços” faz o trajeto de bicicleta e tem ainda que burlar a fiscalização, tomando caminhos alternativos, não vigiados. Beto é um destes que arrisca a integridade física diariamente por um pouco de dinheiro. Ele mora com sua esposa, mulher que cuida exemplarmente do lar e com sua filha, adolescente que sonha em ser locutora, abandonando assim a vida que leva com seus pais, negando o fardo da miserável hereditariedade social. Tudo muda quando se anuncia que o Papa João Paulo II virá à Melo, o que desperta nos moradores o tino comercial, afinal se esperam milhares de romeiros vindos do Brasil para acompanhar sua santidade. Entre barracas de lingüiça, tortas e outras guloseimas que se pretende vender na cidade, Beto tem a idéia de construir um banheiro, afinal com tanta comida vendida, alguém há de precisar se aliviar, atendendo assim à suas necessidades fisiológicas. Neste empreendimento Beto pensa estar seu “pulo do gato”, a iniciativa que fará suas vidas mudarem para melhor, como se o Papa trouxesse o milagre consigo, não por meio da santidade, mas sim pela prática mundana do comércio, do lucro.
O Banheiro do Papa é um filme muito sincero, pequeno em sua realização. A utilização de atores não profissionais coopera, e muito, para o naturalismo da narrativa. A fotografia em tons terrosos dá a esta realização um colorido especial, que não imprime verniz de beleza à pobreza, mantendo assim o relato fiel de uma região. Por mais que o evento central do filme seja a visita do Papa, O Banheiro do Papa fala mais abertamente sobre a situação daquela gente, de como aqueles moradores interioranos levam suas vidas e como é sua luta diária pelo trabalho que, mesmo clandestino, não nos é apresentado ideologicamente como algo ilegal, percebemos os moradores como que levados pela ocasião, não tendo eles muitas opções de labuta em uma cidade pobre, sem perspectivas.
Como dito no início, achei que este filme mantém uma espécie de diálogo, guardadas as devidas proporções, com o clássico Ladrões de Bicicletas. Da mesma forma que Antonio, Beto também usa sua bicicleta como meio de trabalho, e ambos vivem numa situação de pobreza quase que extrema, aonde a companheira de duas rodas significa muito mais do que um meio de transporte. Ambos os protagonistas tem mulheres trabalhadoras, que lavam roupa para fora a fim de ajudar no sustento da casa. No campo das diferenças, a mais latente diz respeito a relação dos portagonistas como seus filhos. A filha de Beto repudia a atividade do pai, num egoísmo compreensível, afinal ela mostra um lado idealista ao querer lutar para sair da situação em que se encontra, nem que seja sozinha. Bruno, o filho de Antonio no filme de De Sicca, sente orgulho do pai, procura ajudar no que pode, é mais realista e tem mais senso de unidade no momento de adversidade que sua família passa, portanto ele pensa mais no todo, não é egoísta, mesmo com a pouca idade que lhe é característica. Porém, o que mais chamou minha atenção para o diálogo supracitado entre os filmes, se encontra mesmo na figura dos protagonistas. Tanto Beto como Antonio, em determinada parte da narrativa, tomam atitudes amorais, se vêem tomados pelo desespero, e se despem de toda sua carga ética, tomando atitudes condenáveis aos olhos da maioria, mas que se apresentavam como único remédio para que suas famílias não perecessem. No caso de Antonio, os filhos e a esposa passando necessidade parecem imagens muito fortes para que ele pense em manter sua moral. No caso de Beto, a família sem dúvida é importante, porém sentimos nele certo egocentrismo, como se suas ações fossem, no fundo, para provar o quão bom e esperto ele é, principalmente para a esposa e a filha que o vê como empecilho para a realização de seus sonhos.
O Banheiro do Papa é um ótimo filme, que derrapa um pouco em seu final, aonde certas posturas construídas vão por água abaixo, certos conceitos que, pouco a pouco, foram sendo edificados ao longo do filme, são simplesmente deixados de lado em prol de um final mais “família” (estou sendo evasivo para não estragar nenhuma surpresa). Reprovável também, é o encerramento com imagens que mais lembram as fotos de Sebastião Salgado. No todo, a realização de César Charlone e Enrique Fernández se mostra um relato muito bem acabado do ponto de vista técnico (bem filmado e com fotografia bem resolvida), dotado de interpretações ótimas, que dão verossimilhança à narrativa, mas que apresenta em seu desfecho alguns maneirismos desnecessários que, se fossem atenuados ou eliminados, teriam encerrado com mais coerência um filme tão bom quanto este.
O MUNDO DE LELAND
Título Original: The
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 104 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2003
Roteiro: Matthew Ryan Hoge
Direção: Matthew Ryan Hoge
"Eu acho que há duas formas de se ver o mundo: uma delas é quando a vida é boa. Talvez algumas coisas estejam erradas, mas você não vê. E a outra forma é quando você vê o que realmente é. Quando você vê que isso está sempre lá, mesmo quando parece bom."
Muitos rotulam O Mundo de Leland como filme pedante, atribuindo, principalmente, este adjetivo à seu texto, às falas de seus personagens. Muitos o definem como mero exercício de estilo artístico, abusando da narração em off para mostrar a introspecção do personagem (aliás, o que tanto se tem contra a narração em primeira pessoa?) e chegam até a reclamar, dizendo que ele tem todos os clichês dos chamados “filmes de arte”. Os detratores que me desculpem, e falo isto sem medo de parecer arrogante, mas O Mundo de Leland é um excelente filme, que alia vários pontos positivos em prol de uma construção intimista e, ao mesmo tempo abrangente de questões bem pertinentes à nós.
Leland não é um jovem qualquer. Ainda freqüentador do colégio, ele começa o filme nos dizendo que, provavelmente, cometeu um engano, mas que não se lembra direito do dia pelo qual todos o condenam. Leland é acusado de assassinar um garoto com deficiência mental e isto faz com que ele seja visto como um monstro. Ao passo que a história pouco tem avançado, já vemos Leland preso, isolado em uma área especial da cadeia, reservada aos criminosos hediondos, ou aos que precisam, pura e simplesmente, de isolamento. A mãe e o pai de Leland são separados. Seu pai é famoso tanto por sua habilidade literária (é um escritor renomado) quanto por sua arrogância e por ser insuportavelmente egocêntrico. Na cadeia, um professor, Pearl, se interessa pela figura de Leland, a quem classifica como um ser fascinante, pela sua capacidade analítica e por um comportamento bem incomum para quem é acusado de um crime tão escabroso.
O Mundo de Leland tinha tudo para ser somente um bom filme, daqueles em que a introspecção do protagonista desnudada somente ao telespectador, por meio da tão mal falada narração em off, seria motivo suficiente para nos prender por um pouco mais de cem minutos à um filme sem muitas mensagens, um breve estudo de caso, por assim se dizer. A grande verdade aqui é que, gravitando ao redor da personalidade realmente fascinante de Leland, está um time de personagens coadjuvantes que dispõe de ótimas histórias pessoais, enriquecendo assim, junto com o protagonista, as várias camadas que existem no ótimo roteiro escrito pelo próprio diretor, em intrincadas e críveis relações. O garoto supostamente assassinado por Leland é um dos filhos da família Pollard, formada por um casal, aparentemente normal, e duas filhas, uma das quais, mais especificamente Becky, numa das grandes galhofas do destino, é o grande amor de Leland. A outra, Julie, namora um rapaz que mora consigo e sua família, situação que se deflagrou após a morte de sua mãe e súbito desamparo do mesmo.
Como supracitado, os subtextos de O Mundo de Leland são riquíssimos e muito bem representados por um texto cheio de frases que, facilmente, figuram na lista das mais bem elaboradas e marcantes do cinema recente. Para alguns, este “excesso” de falas elaboradas milimetricamente atrapalha o todo, dando aquele ar pernóstico ao filme, como se ele quisesse ser muito mais do que é. Digo, mais uma vez sem medo de eu mesmo parecer pernóstico, que as falas são excelentes, emotivas sem a pieguice comum a alguns filmes do gênero. No cerne, O Mundo de Leland fala sobre nossas motivações, também sobre as conseqüências de nossos atos na vida de outras pessoas, porém fala com mais paixão do que nos motiva à certos comportamentos e questiona se realmente devemos ser julgados por alguns atos que não apresentam motivação alguma, como se questionasse a própria existência do fator motivacional em todas nossas ações.
Não bastasse toda riqueza dialética do filme, (acredito ainda que o fator que apresentarei a seguir contribui demais para esta riqueza) temos as interpretações de um elenco maravilhoso. Na homogeneidade do bom desempenho do elenco, consigo ainda destacar incontestes três atuações de um calibre emocional e artístico bem acima da média. Começando por Ryan Gosling, o melhor ator de sua geração, mostrando, a cada trabalho, sua total entrega e transformação, tal qual encarnasse verdadeiramente a persona que representa. E os outros dois são: Don Cheadle, soberbo como o professor Pearl, que se interessa por Leland e, junto com ele, é responsável por conversas que dizem muito sobre o filme, e Kevin Spacey, como o pai do protagonista, que não aparece muito, mas que, quando aparece, deixa em nós uma marca, tal qual a maioria de suas interpretações.
Podem os detratores redigir textos e mais textos apontado os erros que eles vêem neste filme, julgando o mesmo com os parâmetros que acharem mais convenientes, disparando contra este e aquele fator que os fazem delegar a esta obra o fardo de ser marginal, não pelo sentido policial, mas por ser à margem do bom cinema americano, segundo eles. De minha parte, considero O Mundo de Leland um excelente trabalho, daqueles que me grudam na poltrona, que me fazem querer estudar mais afundo os personagens, que me mostram interpretações magnéticas e discussões pertinentes, mesmo que envernizadas com belas frases. Aos detratores, minhas condolências, por não verem
BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS
Título Original: The Dark Knight
Gênero: Aventura
Tempo de Duração: 142 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2008
Roteiro: Jonathan Nolan e Christopher Nolan, baseado em estória de Christopher Nolan e David S. Goyer e nos personagens criados por Bob Kane
Direção: Christopher Nolan
Este era, sem dúvida, o filme mais esperado do ano. Vimos a franquia Batman ressurgir das cinzas com Batman Begins, após quatro equivocadas tentativas que resultaram em filmes ridículos e fomos bombardeados por, quem sabe, a maior e mais inteligente campanha de marketing do cinema para esta seqüência, então nada mais normal do que a expectativa gerada
Gothan City está passando por um momento de transição. Depois de chegar ao fundo do poço, como um local em que a corrupção e o crime davam as cartas, a cidade está recuperando sua auto-estima, em boa parte por causa de duas figuras importantíssimas: o homem vestido de morcego que limpa a cidade, e o promotor Harvey Dent, homem que parece acima de qualquer suborno, um alguém heróico em sua jornada de justiça pelos meio legais. O Tenente James Gordon, além de contribuir, e muito, para que os maiores mafiosos de Gothan sejam processados, firma ainda uma parceria informal como o justiceiro mascarado, por não considerá-lo uma ameaça e sim grande auxílio. No meio da reconstrução moral de Gothan aparece um palhaço, um sujeito debochado, cria do caos, sem um passado explícito ou motivações claras. O alucinado (ou seria louco), que se veste como um comediante macabro, tem um sorriso permanente entalhado por meio de cicatrizes horrendas e se auto-entitula “Coringa” só quer ver o circo pegar fogo e, em sua figura surge o perfeito contraponto para o símbolo que Batman representa, como se fossem as faces de uma mesma moeda.
Muito se comenta a respeito de qual seria o ponto principal de Batman – o Cavaleiro das Trevas, qual seria o fiel da balança que faz com que a abordagem, de Nolan e sua equipe, seja tão eficaz, ou seja, qual o centro da trama? Uns dizem que são os tormentos de Batman que, mais uma vez interpretado com brilhantismo por Christian Bale, supera a fase pós-traumática da morte dos pais e sê vê envolto em mais culpa, já que os lunáticos como o Coringa somente surgem quando os heróis, como ele, se dispõem a lutar. Outros dizem que é o Coringa, esta figura que já nasce como um símbolo de maldade desvairada, como o caos personificado na interpretação visceral de Heath Ledger. Para mim, as figuras ideológicas centrais de Batman – o Cavaleiro das Trevas são: o Tenente James Gordon e a própria cidade de Gothan, bem como seus habitantes. Como dito antes, Gothan passa por um processo de revitalização moral e no meio do embate entre Batman e o Coringa, é a sociedade, as pessoas comuns como Gordon que fazem com que o filme de Nolan seja bem mais do que um filme de herói.
Havia a preocupação de que, com a aparição de dois vilões poderosos no filme eles pudessem se anular, o que, felizmente, não acontece. A alternância entre eles é harmônica e, em nenhum momento o Coringa e o Duas-Caras colidem narrativamente, pelo contrário, suas aparições, mais a figura de Batman, constroem a ideologia do filme e, não bastasse tudo isso, ainda temos alguns momentos cômicos bem pertinentes, com destaque para o Coringa vestido de enfermeira. Por tudo isso, afirmo que Batman – o Cavaleiro das Trevas é, de longe, o melhor filme de um super-herói que já foi feito. Dotado de um espírito livre, afinal o diretor o solta das amarras da linguagem dos quadrinhos e o deixa ser muito mais que uma adaptação, o filme é um deleite para qualquer apreciador de cinema, desde os mais exigentes, aos preocupados somente com grandes seqüências de ação. As cenas finais são de arrepiar, com um personagem definindo o vigilante silencioso que Batman é, não o carimbando como herói que ele julga ser, mais do tipo de herói que Gothan City merece e necessita, daqueles que são bem mais do que disfarces e alteregos.
Parafraseando o Coringa: Why So Serious? (a melhor frase do filme)
LADRÕES DE BICICLETAS
Título Original: Ladri di Biciclette
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 90 minutos
Ano de Lançamento (Itália): 1948
Roteiro: Cesare Zavattini, baseado em estória de Oreste Biancoli, Suso Cecchi d'Amico, Vittorio De Sica, Adolfo Franci, Gerardo Guerrieri e Cesare Zavattini e em romance de Luigi Bartolini
Direção: Vittorio De Sica
Uma das coisas mais apaixonantes no cinema é a descompromisso com nossas primeiras impressões, isto é, a faculdade que ele tem de se mostrar de diferentes formas, em diferentes ocasiões, tudo isso em se falando, às vezes, de um mesmo filme. Digo isso, pois, a primeira vez que vi Ladrões de Bicicletas confesso que gostei, mas não me empolguei com a obra de De Sica. Acabo de re-assistir ao filme. Não sei explicar, se por uma força qualquer ou, simplesmente, por maior atenção que tive ao conjunto, minha impressão mudou. Agora sim, posso dizer que considero este um grande filme, dotado de uma poderosa mensagem social e impregnado de uma força estética que beira o registro cru, mesmo assim não negligenciando a mise em scène que lhe confere um toque de fábula, numa história triste do pós-guerra.
Em Roma, Antonio, um trabalhador de origem humilde, está como a maioria da população italiana: à procura de emprego. Ele finalmente o encontra, é chamado para colar cartazes de cinema pela cidade, mas, para isso, precisa de uma bicicleta. Antonio a tem e não a tem ao mesmo tempo, isso, pois teve de penhorá-la para que sua família pudesse comer. Passado o primeiro problema, o de recuperar a bicicleta do penhor, Antonio vislumbra uma mudança na sua vida, de sua mulher e de seus filhos, afinal com o trabalho ele não verá mais os seus passarem necessidade e terá de volta um pouco de dignidade. Tudo parece se encaminhar, mas, logo no primeiro dia, Antonio tem sua bicicleta roubada enquanto cola um cartaz. O desespero volta a bater a sua porta, o fantasma da fome e da pobreza absoluta volta a assombrá-lo. Antonio então, decide sair com seu filho, Bruno, à procura do único meio que dispõe para continuar a sonhar com dias melhores, não aonde ostentará algo, mas em que não precise mais ver seus filhos e esposa passando fome.
O que impressiona, lodo de início, é a coragem de De Sica ao tirar o cinema do estúdio, do conforto das manipulações (tendência do cinema da época) e levá-lo às ruas, capturando a realidade, ajudando a consolidar o chamado Neo-Realismo Italiano, aonde se deixava para trás as histórias com final feliz, de mensagens positivas, para mostrar como estava o povo italiano depois da segunda grande guerra. A câmera de De Sica passeia por uma cidade cheia de pessoas desocupadas, vítimas da escassez de trabalho e da incapacidade dos governantes de ajudarem o povo. O diretor foi condenado por apresentar para o exterior uma imagem da Itália que não se deveria mostrar, justamente esta face pobre que era dominante na época.
A epopéia de Antonio e Bruno em busca da bicicleta roubada é um pretexto para que o grande De Sica apresente este cotidiano social, vigente na época. Antonio recorre a todo tipo de ajuda, desde à polícia convencional, até aos amigos que conhecem o submundo. Os tipos que Antonio e Bruno encontram pelo caminho são riquíssimos e, pouco a pouco, temos o organograma de uma sociedade em frangalhos, aonde ter emprego fixo era quase um luxo, na qual os desesperados buscavam alento em videntes charlatões ou mesmo nas igrejas lotadas de indigentes que, não fosse a ajuda de alguns abnegados ligados à grupos católicos, definhariam pela privação do alimento. No filme, De Sica utiliza a própria arte como meio de discussão. Em determinada parte, vemos um grupo de cantores ensaiando em um local, ao lado de onde acontece uma reunião de alguns homens que conversam sobre política. Em dado momento, os grupos precisam conviver espacialmente, mas não o fazem por incompatibilidade, como se De Sica estivesse ali denunciando o descaso da arte com as questões mais urgentes e , em contrapartida, a falta de confiança dos pensadores políticos na relevância das manifestações artísticas. Já com o título do filme, De Sica denuncia as forças que roubavam do povo o direito de trabalhar, como o ladrão que roubou de Antonio este mesmo direito.
Ladrões de Bicicletas é um grande filme não só por que tem um roteiro maravilhoso, atuações bem naturalistas e a direção elegante de Vittorio de Sica. A meu ver, o que mais impressiona é o retrato do povo, a forma como o diretor e sua equipe nos expõe a situação calamitosa que a Itália vivia, nos fazendo entender e não julgar, de forma rasa, certas atitudes, culminando com um dos finais mais emblemáticos e tocantes que já vi no cinema. A jornada do pobre Antonio (interpretado com maestria por Lamberto Maggiorani) e de Bruno (tocante na figura do pequeno Enzo Staiola) é edificante para o espectador, que acompanha o sofrimento de um pai e de seu filho em busca da dignidade, atributo este que, quando se perde, é por um motivo muito maior e urgente do que ética ou moral.
QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL
Título Original: Four Weddings and a Funeral
Gênero: Comédia Romântica
Tempo de Duração: 118 minutos
Ano de Lançamento (Inglaterra): 1994
Roteiro: Richard Curtis
Direção: Mike Newell
Na minha opinião, Quatro Casamentos e Um Funeral, é a melhor comédia romântica que já foi feita, pelo menos é a melhor que assisti até hoje. No meio de um monte de filmes que hoje só emporcalham o gênero com idéias repetidas, re-assistir esta obra-prima inglesa do começo dos anos noventa é como ser transportado para uma época, não tão remota assim, em que se tinha a comédia romântica como um tipo de cinema mais inteligente, com roteiros realmente românticos e engraçados. No cinema atual, quando um personagem de rarefeito impacto encaixa algum bom diálogo, falando das dificuldades dos relacionamentos, ou algo que o valha, nos contentamos por falta de opção.
Como o próprio nome já diz, ao longo do filme teremos quatro casamentos e um funeral. O primeiro casamento, festividade chave para a construção e para o desenrolar da trama, é um show no que diz respeito a tempo de cena e de texto. Charles, padrinho do noivo, acorda atrasado (como sempre) e precisa correr contra o tempo para chegar antes da noiva na igreja. Numa seqüência hilariante, vemos Charles e sua companheira de quarto, Scarlett, a bordo de um típico mini-carro inglês percorrem o caminho, desesperados pelo atraso de ambos. Ao chegar à igreja, Charles percebe que cometeu um grande erro, ao esquecer um dos artefatos mais importantes de uma cerimônia religiosa de casamento. Descrevo as cenas iniciais, pois elas servem perfeitamente para nos habituar, em poucos minutos, com a maioria dos personagens e ainda nos inserem no ritmo narrativo proposto pelo diretor e pelo roteirista. Durante a festa de casamento, Charles se enamora por uma americana e, este amor à primeira vista o balança como nunca imaginou, fazendo-o tomar atitudes intempestuosas, entre outras reações estranhas para um, antes, solteiro convicto.
Quatro Casamentos e Um Funeral é um filme especial, com frescor impressionante e uma simplicidade de que só grandes filmes podem dispor. O diretor Mike Newel merece reverência especial por alguns motivos bem específicos, como, por exemplo, ser simplista em seus enquadramentos e não querer transparecer estilo ou se firmar como esteta, mostrando sim, ser diretor de cinema na amplitude que o conceito oferece. A câmera de Newel parece obedecer aos personagens, e não o contrário. O diretor está muito mais preocupado com a interpretação do excelente elenco que ele conseguiu arregimentar. O carisma dos personagens, aliado ao excelente roteiro, cheio de diálogos inspiradíssimos, é o elemento que dá alma ao filme, fazendo com que a abordagem do amor seja correta, não incutindo à ele status de sentimento piegas e delegando à comédia o papel de tornar mais suave e fluída a narrativa, sem bestializar a história ou enchê-la de patifarias.
Quando Quatro Casamentos e Um Funeral abandona seu clima de comicidade, ao mostrar um evento triste, o funeral do título, não fica aquela sensação de quebra abrupta de ritmo, tampouco a tristeza tem papel reduzido. O diretor Mike Newel consegue magistralmente retomar o tom da comédia e do romantismo mesmo após nos ter induzido às lágrimas durante o funeral e uma das mais belas declarações de amor que já vi. Retomando o viés do elenco, destaco duas interpretações, as quais julgo magníficas: a de Hugh Grant, no maior e melhor papel de sua carreira; e a sempre excelente Kristin Scott Thomas, uma coadjuvante e tanto. Falem o que quiserem, mas o casal protagonizado por Hugh Grant e Andie MacDowel é adorável, um dos mais carismáticos do cinema, e é impossível não se enternecer pelos dois.
Podem os mais xiitas e preconceituosos (com o cinemão americano) dizerem que Quatro Casamentos e Um Funeral é excelente, pois vem da Inglaterra, como se o cinema europeu hoje estivesse cheio de filmes inspiradíssimos do gênero, o que não é verdade. A comédia romântica está desgastada e retomando esta belíssima obra de Mike Newel , podemos até dizer que os filmes atuais somente são um pastiche, uma verdadeira colagem de boas idéias que funcionaram, e muito, em obras deliciosas como esta, mas, que não se consegue reproduzir em níveis industriais.
O QUARTO DO FILHO
Título Original:
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 98 minutos
Ano de Lançamento (Itália): 2001
Roteiro: Nanni Moretti, Linda Ferri e Heidrun Schleef
Direção: Nanni Moretti
Quantas famílias já sofreram a perda de um ente querido e nunca mais conseguiram voltar a ser o que eram? Tragédias, quase sempre, mudam drasticamente as pessoas que sobreviveram. O cinema é terreno fértil de exemplos de histórias contadas a partir de uma fatalidade, da morte, seja ela ocasionada por qualquer fator. Neste filme, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, o diretor italiano Nanni Moretti pretendeu dar sua contribuição para este filão, mostrando como a partida de alguém tão jovem afeta o âmbito familiar.
Giovanni, protagonizado com muita sensibilidade pelo próprio Moretti, é um psicólogo que, assim como os outros, vive envolto com pacientes portadores das mais diversas neuroses, dos mais inofensivos aos mais ofensivos desvios de personalidade. Giovanni é um pai dedicado, marido igualmente preocupado com a saúde de seu casamento, profissional que tenta manter distância emocional de seus pacientes, a fim de que haja maior imparcialidade e profissionalismo na condução de seus tratamentos. Ele tem dois filhos, Andrea, jovem cheio de energia que adora corridas com o pai e mergulhos com os amigos e Irene, garota integrante de um time de basquete. A mulher de Giovanni, Paola, é muito bonita e bem sucedida profissionalmente. Tudo transcorre com normalidade e de uma forma tranqüila. Vemos Giovanni em sua profissão, acompanhamos seus pacientes, somos deslocados até sua casa, no âmbito de sua família, e vamos, pouco a pouco, montando a personalidade do protagonista, numa história que é contada por meio de uma narrativa muito agradável, livre de maneirismos desnecessários.
Em determinado dia, Giovanni precisa abdicar de um programa em família para atender um paciente que se julgava estar muito mal, precisando com certa urgência de seus préstimos. Na sua ausência, ocorre a tragédia que conduzirá a trama até o final da projeção. A morte aparece repentina, sorrateira e desestabiliza não só uma, mas várias vidas que gozavam de plena felicidade ou, pelo menos, de mais momentos felizes do que infelizes. A maneira como o diretor/roteirista/protagonista Nanni Moretti conduz esta mudança de ritmo é algo a se louvar, pela sensibilidade, pelo cuidado. A família, mesmo sabendo precisar de unidade num momento tão difícil, começa a dar sinais de desgaste, como se não se suportasse mais na ausência definitiva de um de seus membros. O que diferencia O Quarto do Filho de outras produções com enfoque semelhante, é mesmo a narrativa desprovida de malabarismos técnicos ou de exercícios de estilo, tudo em prol da história, no intuito de privilegiar o desenvolvimento dos personagens e a crescente identificação por parte do espectador, por meio de algo muito bonito, tocante de verdade, sem apelar para emoções baratas.
Acredito que as qualidades mais latentes de O Quarto do Filho se refiram ao talento de Moretti, que assume o conceito de cineasta, ao dirigir e escrever. Além disso, ele nos entrega uma interpretação maravilhosa como protagonista. Outra coisa que torna este filme muito especial é a maneira como ele mostra pessoas, as revira do avesso por meio de um evento traumático, e as reconstrói lentamente, obedecendo um fluxo natural, não se entregando à maniqueísmos, fugindo de situações estereotipadas. O Quarto do Filho é o primeiro filme que vi de Nanni Moretti, autor considerado, por muitos, como um dos únicos cineastas italianos ainda capazes de fazer algo relevante artisticamente hoje em dia, curioso conceito para um país que já nos mostrou, nas décadas de 60 e 70 principalmente, diversos gênios do cinema. A julgar pela forma como este filme me impressionou, do ponto de vista narrativo, e pela maneira com que me emocionou, não tardarei a procurar mais obras de Moretti. Como é bom ver o cinema italiano tão bem representado.
WALL-E
Título Original: Wall-E
Gênero: Animação
Tempo de Duração: 97 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2008
Roteiro: Andrew Stanton
Direção: Andrew Stanton
De tempos em tempos somos apresentados, no mundo do cinema, à histórias de cunho apocalíptico, aonde nós, seres humanos, ou temos de conviver com um planeta Terra podre de sujeira, ou somos obrigados a emigrar para outros locais da galáxia, a fim de ter uma vida sustentável. Tendo por base esta recorrência, podemos afirmar que a visão do futuro que temos, é bastante pessimista, já que o presente nos aponta para uma degradação cada vez maior de nossos recursos naturais e outros fatores necessários à nossa sobrevivência. Nesta nova animação, dos exímios contadores de histórias e gênios tecnológicos que formam a Pixar, temos um robozinho, quisá o último a se movimentar sobre a superfície de um planeta aonde a vida orgânica não parece ter mais chance (a não ser as baratas), devido a altas concentrações de lixo. Os humanos emigraram para uma estação espacial gigantesca há mais de 700 anos e nunca mais puderam voltar, por falta de uma amostra de que a vida conseguiria triunfar novamente em seu planeta natal.
O robozinho supracitado se chama Wall-e, sigla de quer dizer Waste Allocation Load Lifter Earth-Class, algo como “Empilhadeira de Lixo de Uso Terrestre”, ou seja, seu trabalho é empilhar dejetos, depois de tê-lo compactado. Nos primeiros minutos do filme, somos apresentados à rotina do robozinho, desde que ele sai de sua casa, acompanhado de uma baratinha muito simpática, até a hora em que volta, com seu serviço completo, cheio de bugigangas que, ao invés de tratar como lixo, prefere guardar por seu teor curioso. Aí temos a chegada de Eva, sonda espacial enviada pelos humanos na esperança de detectar novamente vida orgânica no planeta. A partir deste ponto, Wall-E ganha em emoção, já que nosso querido robô se apaixona.
Aí vem o fato pontual que desencadeará a mais importante aventura de Wall-e. Eva é levada de volta à nave e nosso querido robozinho larga tudo para ir atrás de seu amor. Neste ponto, aonde vemos a estação espacial em que os humanos sobrevivem, o filme mergulha de cabeça em diversas camadas de interpretação que enriquecem, e muito, a narração. Temos desde a abordagem das conseqüências pelo desleixo com a natureza e os meios de subsistência, passando pela massificação do ser humano através das grandes corporações e a importância dos sentimentos na construção de um mundo melhor. Há muitas cenas
A estrutura sem palavras, já que Wall-E e Eva emitem, na maioria das vezes, somente sons abstratos, além de dizerem seus próprios nomes, lembra muito os filmes mudos, em que os gestos e as imagens ali estavam para substituir palavras. Este recurso narrativo é empregado com maestria pelo diretor/roteirista Andrew Stanton, criando seqüências exuberantes e repletas de significados. Corroborando com a capacidade inventiva do diretor/roteirista, temos uma qualidade de animação incrível e a utilização primorosa do som. Mas o que, a meu ver, eleva a Pixar à outro patamar com Wall-E é a profundidade dos temas abordados, a forma como o subtexto é apresentado, a maneira como a narrativa cativa e diverte ao mesmo tempo. Eu sei, faz tempo que estes gênios vêm nos apresentando animações muitíssimo acima da média (e eu gosto muito de quase todas), mas não com a profundidade e qualidade de Wall-E.
A Pixar, mais uma vez, me surpreende, me emociona, me cativa, só que, desta vez, de uma maneira como nunca tinha feito. Agregando à quesitos técnicos impecáveis, uma narrativa absolutamente soberba, Wall-E figura entre os melhores filmes que vi este ano, algo refletido na impossibilidade que tive de me mexer da cadeira do cinema até que o último crédito fosse revelado. Numa realidade cinematográfica na qual vemos o futuro como sendo sombrio e triste, chega um pequeno ser inorgânico que nos mostra que sim, o mundo caminha para um futuro seriamente comprometido, mas, se cada um de nós fizer alguma coisa, por menor que ela seja, teremos uma chance. É um otimismo não exagerado, plausível, que vai ao encontro de um protagonista absolutamente carismático e expressivo que, para mim, é o maior êxito da Pixar, protagonizando um das melhores animações que já vi. Soberbo.
ZONA DO CRIME
Título Original:
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 97 minutos
Ano de Lançamento (México): 2007
Roteiro: Laura Santullo e Rodrigo Plá
Direção: Rodrigo Plá
O cinema dos países latinos é, muitas vezes, criticado no exterior, e até mesmo dentro de suas fronteiras, por explorar demais a violência, mostrar em demasia a pobreza e ficar insistindo em utilizar o veículo como meio de levantar discussões sociais. Olhando um pouco para trás e invocando os movimentos cinematográficos latinos dos anos 60/70, percebemos que as causas sociais sempre foram norteadores de nossa arte, da expressão de um povo subdesenvolvido que lida diariamente com as diferenças. Esteticamente, Zona do Crime não traz consigo nenhum traço do cinema novo latino-americano de outrora, mas tem a discussão sobre o abismo que separa os ricos dos pobres (e suas implicações) como mote, herança direta e irrevogável dos cineastas de antigamente.
Já nos primeiros planos, o cineasta Rodrigo Plá nos joga na cara as diferenças supracitadas, ao mostrar um condomínio de luxo, altamente protegido por muros, arame-farpado, câmeras de segurança e policiamento privado, que é vizinho de uma área pobre, extremamente pobre. Numa destas coincidências, das quais a realidade e o cinema estão cheios, em meio a uma tempestade um outdoor cai, destruindo parcialmente o muro que separa estes mundos, possibilitando a entrada, na zona protegida, de três jovens que têm o intuito de furtar. Várias tragédias se sucedem. Miguel, o único dos três a continuar na zona, vira foragido num ambiente hostil que dita suas próprias leis e está cheio de senhores da verdade que acreditam poder decidir quando a justiça será feita por suas vias normais, mesmo que morosamente, ou quando o “olho por olho, dente por dente” ditará as regras. Então, em pouco tempo de projeção, temos o que a guiará até o final: um sujeito pobre, pequeno meliante, preso numa área cheia de pessoas de classe média/alta querendo fazer “justiça”, sem a interferência da justiça.
Por esta descrição, podemos imaginar que o filme de Rodrigo Plá bebe fortemente da vertente do maniqueísmo, certo? Certo, e o filme é mesmo ligeiramente maniqueísta. Alguns personagens não possuem muitas camadas interpretativas, pelo menos a maioria deles está ali para passar uma idéia de que forma a sociedade pensa como um todo. Nesta massa uniforme destacam-se alguns tipos que servem para humanizar a narrativa e enriquecer a experiência do espectador. O garoto Alejandro, por exemplo, vê seus pais divergirem sobre o assunto, sobre como lidar com uma criança marginal, presa numa ratoeira, longe do convívio dos seus. É por meio das experiências de Alejandro que vamos conhecendo mais a história e entendendo à quais caminhos Rodrigo Plá, e sua equipe, querem nos levar. A mensagem aqui, e isso se reforça com muita violência do meio para o final, é que estamos muito acomodados em nossas cadeiras, nossas posições de juízes esporádicos, quando comentamos aspectos sociais, ao fincarmos nossa bandeira contra a criminalidade, não querendo saber como ela nasce, mais preocupados em como exterminá-la.
Zona do Crime é um soco gradativo no estômago. Pode ser acusado por humanizar o bandido e tornar vilão quem tem dinheiro. Porém, se formos um pouco além, veremos que o jovem diretor mexicano queria nos mostrar como pensamos, expondo nossos preconceitos, ou mesmo idéias superficiais que, muitas vezes, defendemos com muito ardor e igual leviandade. O final não poderia ser mais incisivo e doloroso, eu mesmo me rendi às lágrimas. Por mais que tenhamos exemplos de bondade, não dá para ficar alheio quando a brutalidade é exposta de uma forma tão próxima da realidade. A redenção chega a aparecer, tímida, só que por meio da individualidade, já que o todo, o pensamento coletivo, prefere a corrupção, a arbitrariedade e a morte, mesmo que exteriormente sempre tenhamos um motivo para nos defender.
O INCRÍVEL HULK
Título Original: The Incredible Hulk
Gênero: Aventura
Tempo de Duração: 114 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2008
Roteiro: Edward Norton e Zak Penn, baseado em personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby
Direção: Louis Leterrier
Seguindo a epopéica tarefa de criar fenômenos de bilheteria aos borbotões, a Marvel nos apresenta O Incrível Hulk, segundo herói desta “nova vida” do estúdio. Como era de se esperar, colocaram à frente do projeto um diretor sem muito prestígio, provavelmente a fim de que ele obedecesse a ordens de produtores e tivesse o mínimo de interferência na história. Como um dos roteiristas, entra no projeto, o também protagonista, Edward Norton. Depois de inúmeras discussões de bastidores, aonde uma montagem mais enxuta imposta pelo estúdio prevaleceu sobre uma visão mais longa e humana do personagem principal (visão defendida pelo diretor e pelo roteirista/protagonista) eis que somos apresentados novamente a Hulk.
No início, ainda nos créditos, temos uma rápida e eficiente apresentação de como o cientista se transformou no monstro, isto por que os produtores não queriam mais uma história de origem e muito menos vincular o novo filme com o fracasso anterior de crítica e bilheteria, dirigido por Ang Lee. Somos então transportados ao Brasil, aonde Bruce se esconde do exército americano, que julga ser dono de seu corpo e poder, e aonde também busca um autocontrole que o ajude lidar com seu pequeno problema. O grande acerto da equipe aqui é não estereotipar o Brasil e a favela, criando um ambiente crível e em ótima sintonia com as intenções de Banner, já que o diretor Louis Leterrier utiliza muito bem o ambiente. Este início serve como construção, já que nos familiarizamos com os personagens, com a nova cara de Bruce Banner e com o viés da nova tentativa de fazer algo relevante nos cinemas com o gigante esmeralda. Assim que somos transportados, junto com os personagens, para os EUA, a ação passa a predominar e os embates com o exército e um inimigo poderoso são os condutores da trama, sem esquecer, é claro, do enfoque no grande amor de Banner e a dificuldade deste relacionamento.
Loius Leterrier não é um grande diretor, mas não podemos deixar de elogiar sua capacidade de dirigir cenas de ação, motivo, aliás, pelo qual foi contratado para este projeto. Apesar de certos tiques desnecessários, Leterrier não compromete na construção. No campo das atuações, gostei muito de Edward Norton, ator de que admiro bastante, como protagonista, e acho que há uma química eficaz entre ele e seu par romântico, interpretado com muita simpatia por Liv Tyler. O ponto negativo aqui fica por conta do pouco aproveitamento, digo de tempo em tela mesmo, do excelente Tim Roth que, repetindo a competência da maioria de suas atuações, nos mostra como Emil Blonsky pode ser um contraponto, no mínimo interessante, para Banner. O som de O Incrível Hulk é algo a se elogiar, pois confere, a certas partes, a força e o impacto necessários para o crescente interesse e imersão dos espectadores, mesmo que, por vezes, alguns sons estridentes demais quase nos deixem surdos.
Alguns podem achar exagerada a batalha final, o uso desenfreado de CGI (muito competente durante todo o filme, por sinal), mas acredito ser um final interessante que demonstra bem o poder de destruição almejado, sem esquecer do humano por baixo do monstro, que acha seu ritmo nas cenas finais, ótimas para mostrar alguém que tem de dominar sua raiva. Ainda falando da batalha, seu tom me pareceu propositalmente muito próximo do embate final em Homem de Ferro, algo que corrobora com a idéia de aproximação dos filmes, já prevendo Os Vingadores, grande filme crossover dos heróis da Marvel, programado para 2011. Isso se reforça
A harmonia entre ação e drama poderia ser mais randômica, afinal temos momentos bem distintos: a construção dos personagens e depois uma correria desenfreada. Nada que comprometa a diversão que o filme proporciona. Incrível Hulk é isso, uma diversão muito bem construída, numa visão mais pessimista e com menos humor do que vimos em Homem de Ferro, por exemplo. Juntando elementos de O Médico e o Monstro, King Kong, A Bela e a Fera, entre outras referências, a Marvel criou mais um ótimo blockbuster e que faz jus ao personagem título, afinal Hulk esmaga.
YOUTH WITHOUT YOUTH
Título Original: Youth Without Youth
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 122 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2007
Roteiro: Francis Ford Coppola, baseado no romance do filósofo Mircea Eliade
Direção: Francis Ford Coppola
Depois de quase dez anos sem filmar, eis que Francis Ford Coppola, um dos mais respeitados diretores contemporâneos, retorna com um filme que em nada lembra suas investidas cinematográficas anteriores. Coppola vive dizendo que cansou de fazer filme comercial, que o fato de limitar sua linguagem para torná-la abrangente, consequentemente atingindo um número maior de pessoas com suas realizações, é algo que ele não faz mais. Rico produtor de vinhos e outros gêneros alimentícios, o cineasta custeou do próprio bolso a produção deste Youth Without Youth. Ele não dependeu de produtores externos, não sofreu sanções de estúdios, ou seja, fez o filme que realmente queria e sentia necessidade.
Dominic é um homem de, aproximadamente, 70 anos. Ele é um estudioso, um intelectual à procura de algo relevante, de alguma contribuição que possa deixar para a humanidade. Sua pesquisa é sobre linguagens, mais especificamente sobre o nascimento delas, sobre o marco zero da expressão por meio de palavras e da consciência humana, numa obra épica que pretende abranger todos os períodos. Por conta deste trabalho homérico, ele se separa de seu grande amor, Laura, que não o reconhece mais e não agüenta suas ausências. Então, certa feita, Dominic está passeando pelas ruas de Bucareste, no ano de 1938, ou seja, no período pré-guerra mundial, quando um raio lhe atinge
Youth Without Youth é uma obra de ritmo gradual, cheia de sub-tramas que tornam difícil a missão do expectador de juntar alguns pedaços para formar o painel geral do filme. Enquanto temos as descobertas de Dominic como centro da narrativa, percebemos suas influências no exterior, como seu acidente inicial e sua nova condição de “anormal” ou “super homem” o tornaram, ao mesmo tempo, alvo do interesse nazista e apto, mais do que nunca, a realizar sua tarefa de pesquisador. Com a entrada de alguns personagens que, ao que parece, têm elos com o passado (presente ou futuro) de Dominic, a narrativa se complica um pouco e, acredito que entender sua totalidade numa primeira vez seja bem difícil. Eu próprio “boiei” em algumas partes, e tenho teorias, no mínimo, duvidosas para outras.
Visualmente belíssimo, fruto de uma fotografia estilizada, da construção de época muito eficiente, de enquadramentos e movimentos de câmera inspiradíssimos, Youth Without Youth é, sem dúvida um verdadeiro giro de 360 graus na concepção de cineasta que temos de Francis Ford Coppola. Ao final, impossível não ter a cabeça recheada de interrogações, mesmo porque a complexidade do filme é fruto da abordagem de temas realmente complexos como vidas passadas, o conceito do tempo, as várias personas que abrigamos em um só corpo. Apesar deste caráter um pouco hermético, a fluidez da narrativa não deixa que percamos o interesse nos eventos, e a busca por respostas é muito mais prazerosa do que frustrante. Youth Without Youth é sim um exemplar muito bom para se recomeçar e Coppola prova que não está acabado, muito pelo contrário, como ele mesmo diz, é um velho fazendo os filmes que queria fazer enquanto jovem. Que venham os próximos e que sejam tão bons e desafiadores como este.


O SIGNO DA CIDADE
Título Original: O Signo da Cidade
Roteiro: Bruna Lombardi
Direção: Carlos Alberto Riccelli
Confesso que, mesmo sendo fã declarado do cinema brasileiro, fiquei apreensivo com este filme. O receio foi passando à medida que li críticas bem positivas e citações muito elogiosas ao trabalho tanto de Bruna Lombardi como de Carlos Alberto Riccelli, respectivamente, roteirista e diretor do projeto. O filme tem a ambição de mostrar São Paulo por meio de um mosaico de personagens, fragmentos de uma metrópole aterradora, cheia de micro-universos tão complexos como o todo. O Signo da Cidade sai-se muito bem em alguns núcleos ao contar histórias relevantes de maneira bem sutil e delicada. Já em algumas abordagens o mal-gosto fica um pouco evidente em situações que nada fazem a não ser estereotipar pessoas, criar pré-definições que não colaboram com a trama e ainda arquitetar elipses inverossímeis que tem o acaso como guião, transparecendo uma falsidade que não condiz com a proposta dos cineastas. É um bom filme, conta com momentos de emoção (Juca de Oliveira arrebenta em suas participações), mas peca nos tiques de um cinema imaturo que almeja ser grande, e ainda não é.

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS
Título Original: Stagecoach
Roteiro: Ernest Haycox (história \'stage to lordsburg\'), Dudley Nichols
Direção: John Ford
Este é o primeiro filme que vejo de John Ford, diretor que muitos consideram um dos maiores que já trabalhou
OLHAR ESTRANGEIRO
Título Original: Olhar Estrangeiro
Direção: Lúcia Murat
A proposta deste documentário de Lúcia Murat é bem simples: mostrar o quão deturpada é a imagem do Brasil no exterior, por meio do cinema, das inserções de nosso país em produções cinematográficas internacionais. Chega a ser cômica a quantidade de absurdos que vemos ao longo de pouco mais de uma hora. Somos amplamente divulgados como sendo um país propício ao sexo fácil, aonde macacos vão até a praia nos colos de mulheres sempre de topless, entre outras besteiras e inverdades. Este documentário é, no mínimo, curioso. Por meio de entrevistas feitas à profissionais, vemos as formas como já fomos retratados pelo cinema estrangeiro e como isso ajudou a criar o estereótipo ao qual atendemos fora do Brasil. Lúcia Murat nos mostra que o cinema de uma nação pode ser um dos maiores fatores da criação de uma identidade nacional perante outros povos, como se fosse nosso cartão de visitas.
INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL
Título Original:
Roteiro: David Koepp, baseado em estória de George Lucas e Jeff Nathanson e nos personagens criados por George Lucas e Philip Kaufman
Direção: Steven Spielberg
Depois da lacuna de quase vinte anos sem uma aventura de Indiana Jones no cinema, eis que surge a busca do arqueólogo pelo reino da caveira de cristal para nos colocar novamente frente a uma das mais bem sucedidas franquias do cinema. Indy não nega seu envelhecimento, não tem o mesmo pique e disposição dos tempos de sua juventude, mas certamente a espera não foi
Sherlock Jr.
Título Original: Idem
Gênero: Comédia
Tempo de Duração: 44 minutos
Ano de Exibição (EUA): 1924
Roteiro e direção: Buster Keaton
Elenco: Buster Keaton, Kathryn McGuire, Joe Keaton, Erwin Connelly, Ward Crane.
Buster Keaton é um mestre.
Afirmação banal e um tanto óbvia para qualquer cinéfilo, mas que não pode deixar de ser feita quando se analisa um filme do mesmo. A partir da década de 20, quando o cinema ainda era entretenimento para poucos, o cineasta se reinventava a cada trabalho e mostrava seu talento ilimitado para criar seqüências estarrecedoras, que ainda na contemporaneidade são esquetes para diversas outras produções.
No média-metragem “Sherlock Jr.”, Keaton (dirigindo a si mesmo como protagonista) é um projecionista de cinema que sonha, literalmente, em se tornar um detetive. Em quase 45 minutos Keaton desenvolve seu personagem através de suas mínimas expressões habituais, o que o caracterizou no cinema por fazer comédias com personagens que nunca riam. Dado o impacto e sucesso que suas produções causavam, foi considerado o grande rival de Charlie Chaplin, vindo a trabalhar com este em “Luzes da Ribalta”, de 1952.
“Sherlock Jr.” mostra com classe inúmeras cenas que, nos dias de hoje, fazem qualquer expectador questionar a forma com que foram concebidas, ainda mais por ser óbvia a limitação técnica quanto a recursos inexistentes na época. Como “pai” das chamadas gags, Keaton impressiona por dirigir com extrema destreza os espetáculos cênicos que são suas cenas evidentemente difíceis, habilidades essas que o marcaram como grande realizador que foi. Em “Sherlock Jr.”, as acrobacias desenvolvidas e executadas por ele deixam qualquer circense enciumado (Keaton, em sua infância, trabalhou em um circo com sua família), e o impacto que algumas cenas causam são muito interessantes, por serem extremamente originais e se sobressaírem facilmente a produções atuais com o mesmo intuito.
A originalidade presente no cinema de Buster Keaton, e evidenciada com o trabalho “Sherlock Jr.”, pode ser analisada através dos diversos momentos em que o expectador se depara com seqüências aparentemente já vistas. A inacreditável seqüência que se passa no cinema foi reutilizada por Woody Allen em “A rosa púrpura do cairo”, porém muito mais explorada no filme de Keaton, e as incríveis perseguições ao final da película certamente vieram a inspirar William Hannah e Joseph Barbera em suas criações animadas.
Volto a mencionar a incrível capacidade de Keaton, ao desenvolver suas produções tão originais e impressionantes para a época, evidenciando o talento criativo tão bem exposto em seus trabalhos. É fácil se lembrar do cinema mudo pela popularidade e comoção que Chaplin explorou através de seus filmes, mais humanos e rebuscados quanto seus roteiros, porém é impossível não mencionar o talento artístico de Buster Keaton, que com cada trabalho deixava aquela expressão inesquecível na mente do expectador, com sua feição séria capaz de transmitir diversos sentimentos.

FANNY E ALEXANDER
Título Original: Fanny och Alexander
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 312 minutos
Ano de Lançamento (Suécia): 1982
Roteiro: Ingmar Bergman
Direção: Ingmar Bergman
Falar de Ingmar Bergman, em minha opinião, é discutir sobre o maior cineasta de todos os tempos. Ninguém investigou tão profundamente a alma humana como ele, chafurdando nos recantos mais sombrios da existência e trazendo à tona seres angustiados, perdidos num mundo aonde Deus parece não existir ou, simplesmente, se calar. Fanny e Alexander é tido por muitos como um dos filmes mais sensíveis do cineasta, aonde ele se mostra mais vulnerável e exposto. Digo isto, pois os elementos autobiográficos que Bergman coloca nesta obra são muito evidentes, e fazer um paralelo entre ele e o jovem Alexander é mais simples do que se imagina.
Fanny e Alexander foi, inicialmente, uma série feita para a televisão sueca que, posteriormente, sofreu cortes para a exibição no cinema. A versão que assisti é televisiva, ou seja, a mais longa. Certa vez Bergman disse que somente se responsabilizava totalmente por esta versão, já que julgava prejudicial à obra a nova montagem feita para o cinema. Dividida então em cinco partes, e acumulando mais de trezentos minutos de duração, Fanny e Alexander é uma das maiores obras deste cineasta e uma de suas últimas. A história gira em torno de uma grande família sueca chefiada pela matriarca, outrora a mais famosa atriz da Suécia. É Natal. Ela resolve chamar as famílias de seus três filhos para as festas em seu casarão. Carl leva sua mulher, uma alemã que o ama acima de qualquer coisa. Gustav, o mais espirituoso dos irmãos, leva sua esposa e seus três filhos. Oscar, o único que seguiu os passos da mãe, sendo ator e diretor de um teatro, leva sua amada esposa Emilie e seus dois filhos, Fanny e Alexander.
Nas entrelinhas começamos, lentamente, a delinear os personagens enquanto a história se desenrola. Aquela família vai secretamente se desnudando, mostrando que, cada um de seus integrantes é muito mais do que o espírito da alegria que representam na mesa da ceia. Os sadismos aparecem, a servidão dilacerante emudece falas e sufoca sentimentos. A felicidade de alguns é mantida à custa da aceitação, da humilhação pública do adultério consentido, da enganação que, na verdade, é escancarada e não engana ninguém. A decadência e falta de sucesso incomodam outros. O lúdico é apoio para os que acreditam ser a realidade dura e fatídica demais. É aí que somos jogados no mundo infantil, mas nada inocente, que Bergman quis apresentar, desde o início. Alexander é, ao mesmo tempo, a memória do cineasta, passeando por relações familiares que ele próprio teve, e nossos olhos, numa visão que busca no imaginário e na aparição dos mortos, este alento para o real desencorajador.
A partir de uma tragédia, Alexander passa a ser, cada vez mais, o centro desta narrativa hipnótica, que nos suga, como que por mágica, para um mundo em que as feiúras e os monstros são tão humanos quanto aquelas crianças que vislumbram situações dolorosas e sofrem as conseqüências. Os maus tratos que um Bispo Luterano infringe à Alexander, sua irmã e sua mãe, remetem aos traumas que Bergman teve durante sua criação excessivamente religiosa, quando sofria com penitências e aprendia temer a Deus, não por respeito, e sim por medo. Os cenários suntuosos, dotados de colorido vivaz (obra da esplêndida fotografia de Sven Nykvist) são testemunhas grandiosas para a trajetória de Alexander em busca de sua identidade, de seu lugar neste mundo.
Velhos colaboradores de Bergman o apóiam neste que prometia ser seu último filme. Impossível não se emocionar ao ver um debilitado Gunnar Björnstrand, na época lutando contra uma doença que, mais tarde, seria fatal, em cenas maravilhosas que remetem à sua origem teatral. O que dizer então de Harriet Andersson, num pequeno papel, ajudando o mestre em seus últimos passos no cinema com sua interpretação sempre marcante, dura e sensível ao mesmo tempo. Aliás, o elenco de Fanny e Alexander é um espetáculo a parte, um conjunto de interpretações muito coeso que proporciona momentos de rara comoção ao longo da série.
Ingmar Bergman se foi, morreu no ano passado sem deixar herdeiros no cinema, a não ser Woody Allen, mas que é muito mais um fã incondicional do que herdeiro. Fanny e Alexander não foi seu último filme, ele ainda fez Saraband, espécie de prólogo de Cenas de um Casamento. Minha impressão é que, fazendo um balanço de sua carreira, olhando para trás e vendo que Deus e seus tomentos juvenis estavam muito presentes em sua temática, o cineasta desenvolveu Fanny e Alexander seguindo estas mesmas críticas à religiosidade, expondo sua face mais sombria, mas encerrou de maneira quase reconciliatória. No final, o pessimismo exposto anteriormente (que paira sobre este filme quase que em sua totalidade) foi substituído pela graça, por uma tragédia que expurga os problemas, como se Deus finalmente, assim como atendeu o pobre Alexander, tivesse ouvido um pouco seu realizador e lhe permitido um final mais otimista. Fanny e Alexander é essencial, não só como cinema, mas também como maneira de entender um pouco mais o maior dos cineastas. Ele não se calava. Queria apenas ser ouvido e compreendido, mas sempre se sentiu só, refém dos monstros que somos, sim, nós os humanos, filhos ou não de Deus.
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